Plano de saúde corporativo é alvo de empresas em cortes

Com a maior inflação médica da década e em meio à crise, empresas buscam maneiras de controlar o avanço dos gastos com a saúde de seus funcionários

 

Por Aline Scherer

3 ago 2016, 14h17

Funcionários da cielo: aulas de dança e academia no combate ao sedentarismo (Germano Luders/Exame/)

São Paulo — Com o agravamento da crise, averiguar com lupa despesas que pesam no orçamento se tornou uma tática de sobrevivência fundamental para as empresas brasileiras. Nessa busca, um item chama a atenção: os planos de saúde corporativos. É o segundo maior custo com recursos humanos, depois da folha de pagamentos. E cresce a um ritmo cada vez mais intenso.
Os custos médicos e hospitalares — mais conhecidos como inflação médica — aumentaram, em média, 70% acima da inflação no Brasil nos últimos anos. Há diversas razões para que isso aconteça. A cada dois anos, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que regula o mercado de planos de saúde do Brasil, inclui novos procedimentos obrigatórios no rol de cobertura das operadoras.
 
Em 2016, foram 21 novos procedimentos, como um exame para o diagnóstico da dengue e um medicamento oral para o tratamento do câncer de próstata. Novos exames quase sempre significam novas — e caras — tecnologias. Neste ano, a inflação médica deverá chegar a 20% — a maior da última década.
Quem paga a conta são as empresas, que custeiam 66% das vidas cobertas por operadoras e seguradoras no país. Há dez anos o benefício consumia 9% da folha de pagamentos. Hoje chega a quase 12%. Diferentemente de outros itens de despesa, no caso dos custos de saúde há poucas variáveis que possam ser de fato controladas.
Não é possível impedir, por exemplo, os funcionários de “consumir” os serviços médicos a que têm direito. É curioso notar que as demissões não ajudam a reduzir o peso desse problema. Ao contrário, elas tornam a combinação ainda mais explosiva.
Funcionários demitidos, que, por lei, mantêm o direito ao plano por pelo menos seis meses, ou funcionários com medo da demissão tendem a fazer mais exames e mais consultas, antes que seja tarde.
 
Segundo a consultoria Willis Towers Watson, os demitidos costumam usar 30% mais o plano de saúde do que os empregados, aumentando a sinistralidade da empresa e, consequentemente, o reajuste do contrato com a operadora. Diante desses custos aparentemente inevitáveis, restam três opções.
A primeira é seguir o caminho mais rápido e dividir a conta com os próprios funcionários reduzindo a cobertura ou ampliando a coparticipação por procedimento realizado. Esse tem sido o caminho seguido pela maioria.
A Mercer Marsh, que dá consultoria em gestão de benefícios ao trabalhador, entrevistou 513 empresas de 31 segmentos e um total de 2 milhões de segurados para saber quais são as principais ações tomadas para reduzir custos com saúde.
Mais da metade — 51% — já divide os custos dos planos de saúde com os funcionários, cobrando uma contribuição mensal ou uma coparticipação a cada atendimento realizado — o limite indicado pela ANS é de 30%.
E 37% pretendem, até o fim do ano, incluir ou aumentar a coparticipação dos funcionários — ou ainda redesenhar o modelo dos planos oferecidos (por exemplo, diminuindo a abrangência geográfica). Muitas — 40% — vão trocar de operadora em busca de contratos mais baratos, uma segunda opção, mais rápida.
A terceira opção demanda mais tempo, embora tenha potencial para trazer resultados mais duradouros: fazer a gestão da saúde. De acordo com o mesmo levantamento da consultoria Mercer Marsh, somente 20% das empresas têm programas de gestão de saúde — mas outras 40% pretendem iniciar projetos nesse sentido até o fim deste ano.
 
Dança, futebol e boliche
A Cielo, maior processadora de pagamentos com cartões do país, optou pelo caminho mais árduo. Em 2013, pediu a seus 2 000 funcionários que respondessem a um extenso questionário sobre seus hábitos. Assim descobriu, por exemplo, que 68% do pessoal era sedentário.
 
O sedentarismo é a quarta maior causa de morte no mundo e favorece o desenvolvimento de doenças crônicas, como hipertensão, câncer e diabetes. Indivíduos com alguma ou várias dessas enfermidades custam, em média, 84% mais do que os saudáveis.
Com base em iniciativas tão simples como estimular o uso de escadas em vez de elevadores, subsidiar a mensalidade em academias e patrocinar campeonatos internos de dança, futebol, boliche e paintball, a companhia influenciou na mudança de hábitos dos funcionários. Hoje, 46% deles são classificados como sedentários, uma redução de 22 pontos percentuais.
Desde 2014, qualquer funcionário acima de 45 anos tem direito a um check-up anual­ totalmente custeado pela companhia no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Antes, somente os funcionários de cargos executivos tinham direito ao benefício. A mudança fez dobrar o número de pessoas elegíveis — 20% dos funcionários.
Uma vendedora descobriu um câncer de mama em estágio inicial e começou imediatamente um tratamento no valor de 100 000 reais. Casos da mesma doença, quando descoberta em estágios mais avançados, chegam a custar 900 000 reais — ou a própria vida.
A nova sede da empresa, inaugurada em outubro de 2015, tem um andar inteiro dedicado a massoterapia, apresentações artísticas, refeitório e cafeteria (onde frituras são proibidas). Com investimentos de 1,7 milhão de reais por ano nesses programas, a Cielo reduziu a sinistralidade — ou a frequência do uso do plano — de 90% para 77%.
Por causa dessa redução, a companhia conseguiu negociar um desconto de 40% no reajuste do contrato do plano de saúde corporativo proposto por sua operadora, a Bradesco Saúde, em janeiro deste ano.
“É preciso perseverança para comandar ações de médio e longo prazo, como o programa de qualidade de vida que reformulamos”, diz Roberto Dumani, vice-presidente de desenvolvimento organizacional da Cielo. Nesse contexto, as operadoras de saúde estão tentando perder a pecha de vi­lãs, fazendo mais do que apenas repassar a inflação aos contratos.
 
Cada vez mais atuam como parceiras. Por causa da crescente inflação médica, a Bradesco Saúde, maior operadora do Brasil, passou a mexer no preço de seus produtos três ou mais vezes ao ano. Até 2013, o reajuste era anual.
“Há anos os clientes nos pedem ferramentas que os ajudem a ter maior controle sobre os gastos com saúde, mas na metade do ano passado a procura cresceu muito”, diz Marcio Coriolano, presidente da Bradesco Saúde e da MediService. Entre as soluções oferecidas está o comitê de saúde, uma prática comum entre as operadoras.
Trata-se de colocar um especialista para se reunir com o RH de companhias do mesmo porte e analisar a base de dados dos atendimentos para controlar os abusos. A troca de informações entre empresas acelera a descoberta de maneiras inteligentes de conter os custos.
 
Em 2015, executivos da montadora Renault e do grupo varejista de cosméticos Boticário, que há nove anos se reúnem mensalmente com a operadora de saúde Amil, perceberam uma queda na marcação de consultas em clínicas e um aumento na procura por atendimento no pronto-socorro dos hospitais — cujo valor é quase o dobro das consultas previamente agendadas.
 
Depois da descoberta, funcionários da Amil entraram em contato com os hospitais mais procurados pelos 13 000 segurados da Renault e pelos 7 500 do Boticário e negociaram descontos de até 30% no pacote de consultas e exames nesses estabelecimentos.
Enquanto isso, a montadora divulgou internamente campanhas para conscientizar os funcionários sobre a importância de procurar um consultório nos primeiros sintomas ou mesmo o ambulatório existente dentro da companhia desde 2012. Alertou sobre as desvantagens de, em casos sem gravidade, procurar um hospital, como o risco de contrair doen­ças no ambiente de um pronto-socorro.
E também sobre o custo maior, inclusive para o próprio funcionário, já que a Renault desconta 20% de cada procedimento. Com as medidas, a procura por atendimento em hospitais caiu de 38% para 25%, e a marcação antecipada de consultas cresceu de 62% para 75%.
“Por causa da crise econômica no país e especialmente no setor automotivo, fortalecemos nossos mecanismos de prevenção de doenças”, diz Paulo Zetola, gerente de saúde e segurança do trabalho da Renault, que acaba de iniciar um projeto piloto para estender as consultas periódicas de funcionários, obrigatórias por lei, aos familiares.
A análise da carteira de segurados identificou que 15% dos dependentes têm enfermidades que devem ser tratadas, como colesterol alto e problemas no aparelho digestivo. O grupo Boticário resolveu ampliar de 20% para 30% a coparticipação dos funcionários no pagamento das consultas ou dos exames médicos.
“O objetivo é aplicar esse mecanismo para que as pessoas evitem desperdícios, como a repetição de exames num curto período de tempo”, diz Luiz Antonio Barbosa, coordenador de medicina e qualidade de vida do grupo Boticário. 
Em vez de fazer o custo doer mais também no bolso dos funcionários, os diretores do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, usaram outro remédio — rechear o bolso daqueles dispostos a participar de um programa de prevenção. Em 2010, a instituição aplicou um questionário para entender os hábitos e a condição de saúde de seus 2 400 empregados. Apenas metade respondeu.
No ano seguinte, foi instituído como condição para os executivos receberem metade da remuneração variá­vel que pelo menos 80% de suas equipes preenchessem o tal questionário e participassem do programa de prevenção.
“Nossa principal preocupação na época era que as pessoas participassem, afinal o hospital estava investindo 1,5 milhão de reais no programa”, diz Paulo Vasconcellos Bastian, superintendente executivo do Hospital Oswaldo Cruz. Deu certo. O percentual de respondentes subiu para 99%. Com um sistema de pontuação, o hospital acompanha a adesão de seus trabalhadores às iniciativas.
Preencher o questionário rende 35 pontos. Tomar vacina antigripal, 5 pontos. Participar de grupos com um objetivo comum, como emagrecer alguns quilos ou diminuir o nível de colesterol ruim, também valem nota e — se alcançadas juntamente com as metas individuais — até prêmios como bicicletas e viagens. Ao somar 120 dos 250 pontos disponíveis, o funcionário garante 10% de sua remuneração variável.
O empregado que somar mais pontos ganha um troféu. Os objetivos são definidos durante a consulta periódica com o médico do trabalho, obrigatória por lei em todas as companhias.
De 2010 para cá, o Hospital Oswaldo Cruz incluiu benefícios aos funcionários, como academia, workshops de educação financeira, acupuntura e acompanhamento com nutricionista e psicólogo — tudo à disposição na sede do hospital, sempre que os funcionários desejarem. O empenho surtiu efeito.
De 2012 a 2014, o contrato de planos de saúde coletivo do hospital não sofreu reajustes e a instituição economizou 6 milhões de reais. Comparar os gastos com funcionários que participam do programa com os que não participam revela números expressivos.
O frequentador da academia custa 1 100 reais a menos por ano, o obeso que participa do projeto consome 2 800 reais a menos do que aquele que não participa e o fumante que fica de fora do programa gasta 95% mais se comparado com o participante que fuma. Em seis anos, por causa das ações, a instituição diminuiu o absenteísmo em 15%, o que gerou uma economia de 400 000 reais.
Com o aumento da demanda por prevenção de doenças no Brasil, novas empresas especializadas nessa atividade começaram a surgir. Em 2013, o grupo espanhol Telefónica adquiriu o controle da Axismed, maior empresa de gestão de saúde do Brasil e uma das pioneiras no gerenciamento de doenças crônicas no país.
A aquisição faz parte da estratégia global da corporação, iniciada há cinco anos, de diversificar os negócios. A receita do grupo, que faturou 47 bilhões de euros em 2015, foi 6% menor do que a do ano anterior. Os ganhos obtidos com os serviços não telefônicos, porém, como os financeiros, de saúde e logística, cresceram 24% no mesmo período e atingiram quase 4 bilhões de euros.
Os clientes vão desde empresas como a de aluguel de carros Localiza e o banco Santander até seguradoras e operadoras de planos de saúde, como SulAmérica, Bradesco, Unimed e Golden Cross. A promessa é a redução de até 30% dos custos com pacientes crônicos.
Funciona da seguinte forma: com a análise de utilização do plano de saúde e o cruzamento de dados coletados em questionários sobre hábitos e com o médico de trabalho nas consultas de admissão e periódicas obrigatórias por lei, as empresas identificam quem são os funcionários e dependentes com doenças crônicas ou qualquer outra população de risco.
A gestora de saúde telefona para as pessoas identificadas e as convida para participar de um programa de prevenção. Se aceitar, o cliente passa a receber o contato semanal de uma espécie de coach, um técnico de saúde que o aconselha sobre tratamentos médicos, alimentação e atividades físicas.
“Já ensinamos por videoconferência o paciente a aplicar uma injeção de insulina”, diz Luciana Lauretti, diretora de operações da AzimuteMed, gestora de saúde fundada em 2010 que faturou 14 milhões de reais em 2015, 30% mais em relação ao ano anterior.
O serviço costuma dispor de uma central telefônica 24 horas para receber dúvidas de pacientes e enviar médicos e enfermeiros para atendimento presencial sempre que necessário. Na empresa de telefonia Oi, 1 500 funcionários ou dependentes participam de um programa desse tipo desde 2011.
Ao longo dos anos, houve queda de 25% nas internações da população monitorada e redução de 13% nas consultas em pronto-socorro. Por outro lado, melhorou o cuidado prévio, com aumento de 11% na realização de consultas e exames de rotina. A empresa de aluguel de veículos Localiza investiu 1,5 milhão de reais num programa como o da Oi, em vigor desde setembro do ano passado.
Detalhes que passariam como irrelevantes despertam o interesse de cada vez mais empresas — com o intuito de melhorar a saúde dos funcionários e, assim, reduzir os custos nesse quesito.
A subsidiária brasileira da companhia de pagamentos eletrônicos PayPalaproveitou a reforma num andar de seu escritório em São Paulo, em setembro de 2015, para substituir 44 estações comuns de trabalho por mesas com altura regulável. Basta apertar um botão e o funcionário pode trabalhar em pé ou sentado, quando desejar.
Segundo a empresa de mobiliário corporativo Steelcase, pelo menos 25 grandes companhias no Brasil instalaram mesas reguláveis nos últimos 12 meses. Diversos estudos revelam que permanecer sentado de 50% a 70% do tempo aumenta o risco de desenvolver diabetes e outras doenças crônicas.
Além disso, ficar muito tempo na mesma posição provoca dores nas costas — a maior causa global de afastamento do trabalho. Com a implementação dessas ações, o resultado é ótimo para os funcionários. E tão bom quanto para as finanças das empresas.
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